Sejamos clichês

Sejamos clichês. Quando for pra valer, não vamos ter medo de falar “Eu te amo”. O “Eu te amo” já anda tão escasso, já anda tão mal falado, tão usado como quem diz “Vou ali na esquina comprar pão”, que quando for de verdade, a gente não pode ter medo de dizer. Não pode se achar bobo, não pode ter medo de arriscar. Se a gente deixa o momento passar, nem sempre haverá um outro igual.

Sejamos clichês. Vamos dar importância mesmo pra cada pequeno momento. Porque toda mulher ama juras de amor, ama receber um buquê de flores enormes e cheirosas, ama que seu homem seja um poço de delicadezas quando está com você.  Eu, pelo menos, amo. Mas o que eu amo mais ainda é que ele abra a porta do carro pra eu entrar, que ele me surpreenda as 16h de uma tarde chuvosa de terça-feira com um “Te amo” no meu celular. Que ele me conte coisas que eu sei que pra ele são dificílimas de contar. Isso pra mim importa mais do que qualquer outra coisa. Porque no final o amor é mesmo construído nesses pequenos momentos, quando você aprende a vê-los com um olhar de surpresa, de quem se encanta como se fosse a primeira vez pela pessoa.

Sejamos clichês. A gente já tem que ser tão duro no dia a dia, já tem que levar uma vida que não te dá um minuto pra respirar, que te obriga (ainda bem) a usar todas as suas horas do dia sem deixar nada pra depois. Então, quando a gente tiver esse tempo extra milagroso, vamos aproveitar com quem a gente ama. Seja namorado, amigos, cachorro… A vida é curta demais pra gente achar que as pessoas estarão sempre esperando pela gente.

Sejamos clichês. Vamos dizer “Bom dia”, “Boa tarde”, “Boa noite” sempre. Vamos lembrar que um “Com licença” e “Por favor” são fundamentais nessa vida, mon dieu. Vamos ser gentis e flexíveis, porque eu acredito mesmo que tudo o que você faz nessa vida, volta pra você em dobro, mesmo que não seja tão já.

Vamos ser clichês. E parar de achar que o mundo é um lugar feio, brutal e incoerente. Às vezes ele até pode ser, mas se você acredita e desiste de jogar, ninguém, absolutamente ninguém vai conseguir te colocar no jogo de novo.

Sejamos clichês.  Vamos achar que a gente merece. Porque a gente tem tendência a se subestimar, a se colocar como incapaz pra uma coisa, a acreditar que a gente não tem chances. Se você não acreditar e correr atrás disso, quem vai acreditar por você?

 Sejamos clichês. E vamos escrever cartas. E vamos ver filmes. E vamos escutar música, e ver peças de teatro, e assistir mais séries, e sermos mais românticos, e chorarmos de alegria. Vamos ser viscerais com cada momento, vamos saber tirar o máximo de tudo. E vamos perguntar muito, e perguntar mais um pouco, e sermos absurdamente fortes quando precisarmos. Vamos reclamar menos e fazer mais, ou se for pra reclamar, reclamar pelo que a gente acredita, sabendo usar todas as cartas da manga. E vamos estudar muito. Estudar um mar de assuntos, aproveitando tudo aquilo que cair em nossas mãos.

Sejamos clichês. Porque, afinal, ser clichê nessa vida tem muito mais a ver com saber aproveitá-la do que ter medo de fazer papel de bobo. A escolha é sua.

Sejamos clichês e exageradamente felizes.

Encontro de heróis

Cazuza por Caio Fernando Abreu

“Difícil juntar as coisas, nessa estranha síntese de Janis Joplin e Dalva de Oliveira: um garotão agitado, bonito, sexualidade gauche, berrado poemas de sabor beat, loucamente temperados por pitadas de Lupicínio Rodrigues, Mick Jagger, Rimabud, Jim Morrison e muito mais. Como é que pode? Eu ouvindo cada vez mais alto Exagerado ou Só as mães são felizes, vizinhos putos e na minha cabeça, rolando todas. Quem seria esse poeta com as letras mais poderosas da atual música brasileira? Quem seria esse roqueiro juvenil e profundo, lírico e maldito, chique e marginal, explodindo as fronteiras do bom-gosto estabelecido, às vezes insuportavelmente lúcido? Eu estava intrigado: a beira da paixão. Como com Ângela Roro, Billie Holiday, Lou Reed.

Ele existe, vocês sabem. Chama-se Cazuza, 27 anos de Áries com Sagitário, logo suavizado pela Lua em Libra. Carioquésimo. De beira de praia. Ipanema. Filho único bem mimado de pai produtor da Philips. Elis Regina pegava ele no colo, ele espiava escondido os papos do pai com figuras como Tarso de Castro ou o lendário Roniquito (irmão de Scarlet Moon). Curtia os mais velhos: ele é mais velho que sua geração. Dublava suas coleções de discos de rock subindo em cima das mesas, a vassoura fingindo de microfone. Menino exagerado, imitava os graves de Maria Bethânia. Estudou 10 anos num colégio de padres, na quarta série ginasial foi expulso: mau-elemento, lógico. O pai prometeu um carro se ele passasse no vestibular. Passou, ganhou o carro e ficou só uma semana na faculdade. Comunicações. Cazuza escrevia uns baratos, queria ser jornalista. Ou fotógrafo, ou qualquer coisa. Mil cursos: medo de encarar a vocação maldita. Ou bendita? Bem, depende.

Um dia não fugiu mais, começou com uma fase super-hiponga, quando foi o que ele chama de “cantor de fogueira”. Juntava bicho, um pessoal em Mauá, Porto Seguro, Trancoso, aquelas coisas, em volta de uma fogueirinha. Pintava uma flauta, uma viola, e lá vinha Cazuza com sua voz rouca de Hollywood’s e conhaques desfilando um vastíssimo repertório. Rocks, tangos, blues, bolerões e o que mais rolasse. Certos traumas: “Me barraram no coral do colégio. Fiz teste com a mulher do piano e não passei.” Veio uma peça teatral, verão de 80-81: Paraquedas do Coração, montado no Circo do Arpoador.  Cazuza era um pouco ator, e cantava. No elenco tinha um moço chamado Léo Jaime que falou assim: “Ô cara, conheço um grupo de rock lá do Rio Comprido que tá querendo um vocalista. Vai lá.” Cazuza foi. Os caras queriam uma garota cantando, mas o som super-heavy deu certo com Cazuza: era o Barão Vermelho. “E o resto?” ele diz “Ah, o resto é História.” Ou seria história? Dois LPs, a explosão de Bete Balanço, a paixão confessa de Caetano, Gil, Bruna Lombardi e todos nós. Cazuza agora, você sabe, é solo.

Surpresa: ele adora Clarice Lispector. Tem Água Viva há anos na cabeceira, chegou a fazer uma música que nunca gravou. Paixão por Nelson Rodrigues. “Me comove tanto a piedade que ele tem pelo ser humanos.” Piedade; palavra chave na obra de Cazuza que dói, lanha e sangra. Lê mil jornais por dia, atento ao horror solto por aí na Nova Idade Média. Foi de uma notícia sobre um bando de adolescentes que violava cadáveres num cemitério do interior de Minas que tirou um verso da proibida (e genial) Só as mães… Barra pesada. Cazuza é proibido. Dark demais? Ou porque fala do real ali da esquina e cá de dentro? Val Improviso, necrofilia. E rosas roubadas. Tem uma coisa nele crescendo, em direção à outra luz. “Tô me vendo mais social, mais preocupado com o coletivo, saindo daquela coisa reduzida de mesa de bar e dor de corno.“ Cazuza é cândido, gentil e abandidado. Tem insônia, fica fazendo fantasias. A mais frequente: “Que tenho uma porção de irmãos e todos dormem no mesmo quarto, em beliches.” Você sente falta de irmãos, Cazuza? Mas você tem tantos, menino. Um beijo.”

Texto escrito por Caio Fernando Abreu (que era jornalista além de escritor) sobre Cazuza para a revista Around. O ano, infelizmente, me é desconhecido.

Sobre o amor e o tempo

Então você me vem com os braços estendidos e me faz deitar minha cabeça em seu colo. São aqueles segundinhos preciosos em que deixo a respiração suspensa e espero que o momento dure uma eternidade. E então você afaga meus cabelos e os despenteia de uma forma carinhosa, de modo a me deixar num estado de felicidade silenciosa, calma.

Minutos de paz.

E os dias passam e as conversas parecem maiores. Maiores não apenas no enredo, mas nas suas compreensões subentendidas. Maiores em suas implicações de sentimentos, de conhecimento um do outro adquiridos com o tempo. Elas enveredam por caminhos obscuros, por situações que nos levam as risadas, aos olhares de entendimento, aos silêncios tão significativos.

E os motivos parecem ganhar força. As escolhas parecem fazer cada vez mais sentido.   Então vêm as gargalhadas, vêm os abraços, vem a respiração quente ao meu lado.

As manhãs chegam e trazem seu sol de primavera, e trazem os beijos de café da manhã, trazem as despedidas antes do trabalho, trazem o cuidado de arrumar o travesseiro e o cobertor que mudaram de posição durante a noite.

Chegam às noites e chegam as confissões, chegam os problemas da vida, chegam as tristezas de um mundo caótico. E então chega seu sorriso, chegam suas palavras de ajuda, chega sua proteção.

E então os dias passam e sua aproximação parece aumentar, parece crescer num ritmo vertiginoso como se pudesse provar que não há limite para o amor.

E as rosas continuam nascendo, o céu a mudar sua cor ao longo do dia e as pessoas a caminharem lá fora pela rua.

E o amor continua forte, poderoso e invencível em todos os instantes

 

Contos de uma aspirante a escritora – Parte I

Sua primeira preocupação foi organizar o cenário de forma que ele ficasse aconchegante e inspirador. Para isso colocou uma xícara cheia de café em cima da mesa e abriu a janela, não completamente, mas de maneira que deixasse um pouco de luz natural entrar no ambiente. Jogou os papéis no lixo e ajeitou a cadeira na posição que lhe parecia mais confortável, esperando assim não ficar com aquela dor nas costas que costumeiramente tinha todo final de tarde. Pronto, agora sim! O cenário conspirava a seu favor. Talvez com essa pequena ajuda as coisas passassem a fluir de maneira melhor e a história ficasse pronta antes mesmo do que poderia imaginar. Sentou e digitou as primeiras palavras…

Era uma vez uma menina…”

É claro que deveria começar com um “Era uma vez”. Implícito. Todo conto-de-fadas que se preze começa sempre pelo “Era uma vez”, não é? Sim, isso era fato certo, mas passado alguns minutos começou a ficar inquieta… Será mesmo que era tão ruim assim que não conseguia sair nem do “Era uma vez”?! Respirou fundo e pensou na imagem da menina. Tinha praticamente fotografado aquilo em sua mente. O vestido rodado vermelho, vermelho vivo da cor da paixão e aquele andar que oh, era de uma verdadeira princesa. O engraçado é que não chegara a ver sua face. Não sabia a cor dos olhos, o formato da maçã do rosto, não fazia a mínima idéia do tamanho dos lábios ou do jeito que eles ficavam quando sorria. Só a vira de costas e isso bastara. Havia um ar tão celestial no andar da menina, no jeito de segurar as próprias mãos por trás do vestido que, mesmo não a vendo de frente, sabia que era nela que buscaria inspiração. Afinal, sonhava em escrever um livro havia anos, e não era um livro qualquer. Seria um grande livro! Foi então que viu a menina… e soube na mesma hora que achara alguém merecedor de uma história.

(continua…)

Créditos da foto: Gianfranco Briceño/FIEMG
Minas Trend Preview
Backstage MTP/Primavera-Verão 2011

No lado de lá

Ela tem quatro anos. Quatro anos de um olhinho verde, miudinho, miudinho, daqueles que parecem olhinhos de gato e que todo mundo quando vê faz questão de falar, “dá até vergonha o olho dessa menina”. Dá para perceber a idade dela no tamanho do corpinho, no jeito ainda titubeante de se expressar com os braços que dão até certa graça naquela falta de coordenação característica. Aí você repara que o andar empinado não condiz com o todo. Nariz arrebitado, pisada forte, tronco ereto, cabelos caídos até o ombro em grandes cachos loiros. Extremamente loiros. Uma mistura de pequenez com gênio forte, como se isso fosse algum pecado… A menina gosta de caminhar pelo corredor da casa da avó sempre que pode. Na verdade não há nada por lá, já que os móveis foram retirados há muito tempo, desde quando o avô morreu. Sem lembranças para afugentar suas noites de sono, a avó preferiu assim: corredor limpo. A menina mal sabe o porque daquele abismo de paredes, apenas gosta de ficar por ali sempre que possível, passeando pelo corredor e espiando pelo buraco da fechadura da única porta do lugar. O buraco da fechadura. O quartinho fica fechado pela falta de utilidade que tem, afinal era escritório do avô e ali ainda restam umas poucas coisas que o finado deixou. As únicas que a avó ainda quis guardar. A menina sabe disso, até porque a avó – depois de vê-la tantas vezes olhando pelo buraco daquela fechadura – explicou para a menina que ali não havia nada demais. Não hava necessidade de gastar as longas horas que passava na frente da porta, não havia mundo encantado por trás daquilo. Nessa horas, os olhinhos verdes da menina fitavam o vazio, na décima quinta explicação que lhe era dada sobre o assunto e, por fim, repetia a mesma frase: “Eu sei, vó”. E ela realmente sabia. Sabia todos os móveis que haviam ali dentro, sabia a importãncia que cada um tinha para o avô, sabia de todas essas verdades que a avó contava. Ela não achava que havia mundo encantado lá dentro, mas mesmo assim gostava de ficar observando pela fechadura. Simples. Certa vez a avó cansou-se daquilo, daquelas inúmeras explicações.. Não era normal uma criança passar tanto tempo fazendo algo tão esquisito. Cansou-se tanto que mandou abrir a porta e largá-la assim, escancarada para qualquer um que cruzasse o corredor. Quando a menina chegou e deparou-se com a cena, parou. Parou com os pezinhos pequeninos coladinhos. Deu meia volta. Dali em diante apenas voltava para cruzá-lo quando precisava andar pela casa, apenas de passagem.

Dias depois foi brincar na casa de uma ‘amiga’.Empurrada pela mãe que já tinha ficado cansada de vê-la sempre sozinha pelos cantos. Brincou com as meninas, correu pela casa, fez seus quatro anos de idade virarem realidade. Até que em uma fração de segundos caiu. No meio da correria mal notara um desnível do chão. Caiu de cara, cabelos cobrindo o rosto. As meninas começaram a rir em pequeninas gargalhadas, achando graça na cena da menina caída. Sentou, tirou os cachos da frente do rosto e respirou fundo. Uma respiração que poderia ser de uma mulher do alto de seus quarenta anos de idade, já com certa marca do tempo em sua vida. Não numa menina de quatro. Como a menina não levantava, as outras voltaram a correr e soltar gritinhos próprios da idade, e logo sumiram-se pela casa. Sozinha, sentada no chão gelado, os olhos de gatinho da menina brilharam ao reconhecer na sua frente uma porta. Uma porta fechada. Levantou lentamente, encostou o olho no buraco da fechadura e ficou ali enquanto as meninas corriam. Por horas e horas a fio.

Sobre a dor, um amigo e uma partida.

E partiu-se.
Partiu o nó que havia sido feito há muito, muito tempo. Nó forte que até então, sob chuva forte ou sol escaldante, ainda continuava firme. Partiu da casa, da cidade, do seu mundo.
Pensou que talvez esse seja mesmo o curso natural das coisas. Alguns vêm, alguns vão, normal não haver um porto certo. A vida te empurra pra isso, te empurra (mesmo?) pra mudança, para o outro lado, para essa infinidade de atribulações que (supérfluas?) são necessárias. E já havia sofrido dores assim, antes, é claro. Lembrou de anos passado e dos choros, dos sentimentos de culpa, raiva, dos gritos e xingamentos feitos. Todos em vão, sempre. Disse em alto e bom som juras infinitas, que nunca cumpriu. É normal, quase intrínseco do ser humano, como uma reação de reflexo. “Promessas malucas, tão curtas quanto um sonho bom”. Mas dor daquele jeito não, não mesmo. Nunca sentira aquilo.
Tentou achar alguma coisa para compará-la. Não dava. Aí entendeu o que diziam (quem?): dor de amor dói, mas dor de amigo, sangra. Sentir aquilo na carne era diferente. Aí pensou que, bom (será que devia mesmo?), ia reunir todas as coisas e jogar fora. Expurgar qualquer indício ou pequeno traço.
Lançou-se correndo sobre vídeos, livros, retratos velhos, um boneco jogado no canto do quarto, um ingresso de show, que bem, lhe trazia lembranças também.
Estancou, num passo.
Mas e se guardasse? Se deixasse tudo numa gavetinha, encerrada mesmo, até que um dia quem sabe, tudo voltasse?
Pensou na cena:
Um belo dia caminhando pela rua, olhando pra ponta do sapato suja de lama, simplesmente se topam como que por encanto (destino?). Olha assustada, bem naquela situação chata de quando ninguém sabe o que fazer. Os cinco segundos mais longos da história. Repara no suéter novo (trocou de trabalho?), naquele olhar murcho de sempre, e naqueles ombros curvados que reconheceria mesmo se estivesse do outro lado da rua.
– “Você por aqui?”
(Acorda, menina!)
Que nada. Sonhar com isso (certeza?) só traria dores de cabeça, mais sofrimento acumulado, mais nós desfeitos. Melhor de tudo mesmo era fingir que nada aconteceu, que nem fazia quando criança e se machucava. O ralado ali, quase obscenamente à mostra, e ela engolindo em seco e sorrindo de lábios apertados.
….
Jogos tudo no lixo, pegou o edredom velho da estante, deitou no sofá e dormiu.

(Deixa sangrar enquanto durmo, que o depois a gente disfarça com um sorriso nos lábios).
Ps: Não escrevi esse texto pra ninguém em particular. Na verdade, escrevi porque sempre vejo textos sobre despedidas, separações e brigas de casais, mas quase nunca sobre partida de amigos. E elas também sangram. Muito, por sinal.

Demônios

Escrito na tarde do dia 21 de junho de 2008
… a time long ago …

Escrevo para espantar meus demônios. Os piores, sempre.
Aqueles desejos totalmente inconfessáveis, que você só revela no momento mais íntimio da sua vida a uma única pessoa.
E não será um momento perfeito. Não será nenhum dia especial, e ela provavelmente de cara não entenderá o porque de você haver escolhido aquele ‘aqui e agora’ pra revelar tão grande coisa.
Contará seus piores segredos nos momentos que menos esperar, provavelmente na madrugada de uma sexta-feira toda normal, quando cansada daquela festa que nada promete senta na mesa e deixa a conversa tomar o resto da noite. Seus demônios saem assim, quando você menos espera. Não pense também que confessá-los será grande coisa. Não sentirás um alívio imediato e muito meno um tardio, não ocorrerá que sua culpa é menor e que agora pode deitar a cabeça no travesseiro e dormir o sono que, teoricamente, imagina que aqueles que não cometeram os mesmos pecados que você possuam. Não, nada disso. Ainda terá pesadelos e continuará a questionar-se porque de fato faz certas coisas, porque não admite a si mesmo que você não é bem o tipo de pessoa que gostaria de ser. A culpa não será menor, o peso em teus ombros não será retirado como quando joga sua mochila de lado ao chegar em casa.
Simplesmente passará a compartilhar com alguém algo que lhe é tão intragável. Ponto final. Demônios não se desfazem, apenas são levemente compartilhados.
Então, o porque de dividi-los ?
Somente após a confissão destes é que perceberás que fizeste uma escolha para sua vida: escolheste lidar com os demônios, e não apenas amendrontar-se deles.
E isso, com certeza, traçará teus próximos passos.

Doses diárias

 

Ele é um homem meio que solitário.

Se é que existe a definição ‘meio solitário’ para alguém. Aí fica a dúvida: a diferença entre um meio solitário e um completo solitário é proporcional ao número de pessoas que o cercam ou ao jeito que ele se enxerga no mundo?

O fato é que era um homem meio solitário, seja lá o que isso queira dizer.

Acordava todo dia pontualmente as 05:30 da manhã, quando seu despertador fazia um barulho baixo e chatinho, que tinha mais sentido em irritar do que acordar. Levantava da cama sempre do lado esquerdo e pisava no chão sempre com o pé esquerdo, porque acreditava que a maioria das pessoas estava errada, e que essa mania de vangloriar tanto o lado direito é que tinha deixado o mundo desse jeito todo confuso. A xícara de café já estava em cima da mesa, religiosamente, já que ele fazia questão de deixá-la naquele mesmo bom e velho lugar de sempre, todas as noites.

Depois fazia o café, e ao tomá-lo – com as rigorosas duas colheres de açúcar, nem muito cheias, nem muito vazias – decidia escutar o rádio para ouvir as primeiras notícias do dia.

Mas era tanta coisa ruim que depois de um tempo aquilo cansava. Não só a rádio, mas todas as coisas ruins também…

Aí sim o dia começava. Saía para o trabalho, passando na banca de jornal do lado de casa – mais desgraça no jornal também? – e trabalhava como um louco até o horário do almoço. Isso quando tinha horário de almoço.

À tarde a dose era repetida. Relatórios; cobranças; um email da mãe falando que sentia saudades; a sua caneta preferida quebrando no meio da escrita de uma frase; o menino do outro lado da salinha chorando por ser demitido. As horas arrastavam-se.

De vez em quando algum colega do trabalho soltava alguma piadinha sobre a nova secretária do lugar. Falavam sobre as mulheres de cada um e sobre as brigas que ‘ninguém aguenta’ mais. O homem, enquanto isso, só escutava. De vez em quando para disfarçar, ria e mostrava um sorriso amarelo como quem pedindo desculpa “imagino como deve ser isso”.

Na hora de ir embora era fácil despistar o pessoal da saidinha pós trabalho. Sofrer de enxaqueca todos os dias pode não ser normal, mas pode ser útil em certas situações.

Às vezes não tinha remédio e acaba levando trabalho pra casa. As vezes se enchia de tudo e ficava deitado no sofá escutando Rolling Stones. Depois de comer alguma coisa perdida na geladeira e dar comida pro cachorro – que sabe Deus lá como ainda sobrevivia mesmo com tanto descaso do dono – ia pra cama, porque amanhã era um novo dia.

Bastava um comprimido de aspirina, um olhar para uma foto pendurada na parede, – já de longa data e na qual um casal aparecia com um sorriso estampado no rosto – e o corpo já se posicionava na posição certa. Ou, pelo menos, a posição que ele considerava certa para dormir, e isso é claro, sempre virado para o lado esquerdo.

Fechava os olhos e esperava que o sono viesse. “Amanhã há de ser outro dia”.

E enquanto isso pensava… Seria ele um homem meio solitário, ou um homem completamente solitário?

Quando, Tempo?

Cansei, cansaste, cansamos.

Ou será que foi o tempo que cansou de nós? Será que foi o tempo que decidiu brincar de Todo-Poderoso e agora que acabou a graça da brincadeira, faz da gente o brinquedo velho esquecido na estante? Daí ele olha para a gente e pensa: “Taí, com esse não tem mais jeito mesmo não”.

Mas… e se tiver? E se ele estiver errado, se o cansaço é momentâneo, se o brinquedo ainda puder despertar interesse, se é só a hora de se preocupar um pouco mais com outras coisas pra depois resgatar o brinquedo velho? Mas aí eu me pergunto…

Quando, Tempo?

Quando é que vai ser a hora de voltar pra brincadeira? Quando é que essa história de “passageiro” vai acabar? A vida também é passageira, e esse brinquedo, por mais velho e esquecido que possa ser, não quer ficar encostado na estante.

Ele também quer sair para ver o jardim.

Há um tempo atrás…

E lá se vão quase dois anos desde que escrevi esse texto. É tão gostoso ver essas coisas velhinhas que a gente escreve, sentir as mudanças que a escrita (e nossa vida) sofreram de lá para cá. Dá uma sensação de nostalgia, mas nostalgia da boa, sabe? De um jeito que faz a gente sentir que o passado foi importante, mas que o presente guardou as melhores surpresas para a nossa vida.

É que a chuva passou, e a borboleta nunca mais foi embora.

Janeiro de 2008

Fuga:

Seria a menina que olhava pro banco ou o banco que olhava pra menina ?
Nem ela sabia, e tampouco queria saber. Só queria chegar até lá, sentir o material sólido e frio junto ao corpo enquanto podia observar o jardim. Mentalmente contava os passos em sua cabeça, como se os números assim milimetricamente contados pudessem fazer o tempo que separavam seus pés até o banco diminuir.
Alívio…
Agora podia sentar, observar os primeiros raios de sol que surgiam naquela manhã de janeiro, sem a preocupação de que o telefone tocaria a qualquer momento; sem o receio de ouvir a voz que não queria escutar(ou talvez por tanto querer) que lhe faria mal, que faria com que ela novamente, repetindo a cena infantil de sempre, se derramasse em soluços e promessas pra si própria das quais segundos depois nem mais se lembraria.
Olhou o jardim, deixou-se ficar assim contemplando horas a fio. Os raios brincavam com as flores projetando seu brilho sobre as begônias, enquanto um bem-te-vi cantava em furor ao novo dia que chegava.
E foi então que viu…como se o tempo e lugar parassem, ela viu a pequena criatura se aproximar; o bater de asas incessante que buscavam alguma pequena flor em que pudesse se deixar ficar. Mas não foi à flor que escolheu. Em transe a menina observava que ela, a borboleta, vinha em sua direção como se tivesse certeza da segurança que ali no banco, em cima de suas mãos, ela encontraria.
Pousou delicadamente na palma da mesma. Era linda, simplesmente linda. A miscelânia feita pelas cores deixava a menina extasiada. ‘Quantas cores será que haveriam no mundo ?!’
E assim por um breve momento, enquanto a borboleta continuava a frente de seus olhos, sentiu o que há tempos não sentia. A paz que procurava havia tanto… a alegria disfarçada que já esquecera como era.
Felicidade! A vida se mostrava à sua frente…tão pequena criatura, tão frágil, tão bela, tão imponente.
O bater de asas voltou e assim a borboleta foi-se embora.
Olhou pro céu e viu que o sol, que já estava na hora de se mostrar majestoso, estava encoberto por nunvens carregadas. O tempo fechado, cinza. A menina sentiu o primeiro pingo na palma de sua mão, onde segundos antes a pequena criatura ali estivera. Inconstante como o tempo ela era, e agora como a gota de chuva gelada que sentia, seu coração por dentro também gelava.
A chuva apertou e a menina assim, de olhos baixos, foi-se embora contando mais uma vez milimetricamente os passos para que estes a conduzissem rapidamente a sua casa. Aonde a chuva não mais a alcançaria.