Encontro de heróis

Cazuza por Caio Fernando Abreu

“Difícil juntar as coisas, nessa estranha síntese de Janis Joplin e Dalva de Oliveira: um garotão agitado, bonito, sexualidade gauche, berrado poemas de sabor beat, loucamente temperados por pitadas de Lupicínio Rodrigues, Mick Jagger, Rimabud, Jim Morrison e muito mais. Como é que pode? Eu ouvindo cada vez mais alto Exagerado ou Só as mães são felizes, vizinhos putos e na minha cabeça, rolando todas. Quem seria esse poeta com as letras mais poderosas da atual música brasileira? Quem seria esse roqueiro juvenil e profundo, lírico e maldito, chique e marginal, explodindo as fronteiras do bom-gosto estabelecido, às vezes insuportavelmente lúcido? Eu estava intrigado: a beira da paixão. Como com Ângela Roro, Billie Holiday, Lou Reed.

Ele existe, vocês sabem. Chama-se Cazuza, 27 anos de Áries com Sagitário, logo suavizado pela Lua em Libra. Carioquésimo. De beira de praia. Ipanema. Filho único bem mimado de pai produtor da Philips. Elis Regina pegava ele no colo, ele espiava escondido os papos do pai com figuras como Tarso de Castro ou o lendário Roniquito (irmão de Scarlet Moon). Curtia os mais velhos: ele é mais velho que sua geração. Dublava suas coleções de discos de rock subindo em cima das mesas, a vassoura fingindo de microfone. Menino exagerado, imitava os graves de Maria Bethânia. Estudou 10 anos num colégio de padres, na quarta série ginasial foi expulso: mau-elemento, lógico. O pai prometeu um carro se ele passasse no vestibular. Passou, ganhou o carro e ficou só uma semana na faculdade. Comunicações. Cazuza escrevia uns baratos, queria ser jornalista. Ou fotógrafo, ou qualquer coisa. Mil cursos: medo de encarar a vocação maldita. Ou bendita? Bem, depende.

Um dia não fugiu mais, começou com uma fase super-hiponga, quando foi o que ele chama de “cantor de fogueira”. Juntava bicho, um pessoal em Mauá, Porto Seguro, Trancoso, aquelas coisas, em volta de uma fogueirinha. Pintava uma flauta, uma viola, e lá vinha Cazuza com sua voz rouca de Hollywood’s e conhaques desfilando um vastíssimo repertório. Rocks, tangos, blues, bolerões e o que mais rolasse. Certos traumas: “Me barraram no coral do colégio. Fiz teste com a mulher do piano e não passei.” Veio uma peça teatral, verão de 80-81: Paraquedas do Coração, montado no Circo do Arpoador.  Cazuza era um pouco ator, e cantava. No elenco tinha um moço chamado Léo Jaime que falou assim: “Ô cara, conheço um grupo de rock lá do Rio Comprido que tá querendo um vocalista. Vai lá.” Cazuza foi. Os caras queriam uma garota cantando, mas o som super-heavy deu certo com Cazuza: era o Barão Vermelho. “E o resto?” ele diz “Ah, o resto é História.” Ou seria história? Dois LPs, a explosão de Bete Balanço, a paixão confessa de Caetano, Gil, Bruna Lombardi e todos nós. Cazuza agora, você sabe, é solo.

Surpresa: ele adora Clarice Lispector. Tem Água Viva há anos na cabeceira, chegou a fazer uma música que nunca gravou. Paixão por Nelson Rodrigues. “Me comove tanto a piedade que ele tem pelo ser humanos.” Piedade; palavra chave na obra de Cazuza que dói, lanha e sangra. Lê mil jornais por dia, atento ao horror solto por aí na Nova Idade Média. Foi de uma notícia sobre um bando de adolescentes que violava cadáveres num cemitério do interior de Minas que tirou um verso da proibida (e genial) Só as mães… Barra pesada. Cazuza é proibido. Dark demais? Ou porque fala do real ali da esquina e cá de dentro? Val Improviso, necrofilia. E rosas roubadas. Tem uma coisa nele crescendo, em direção à outra luz. “Tô me vendo mais social, mais preocupado com o coletivo, saindo daquela coisa reduzida de mesa de bar e dor de corno.“ Cazuza é cândido, gentil e abandidado. Tem insônia, fica fazendo fantasias. A mais frequente: “Que tenho uma porção de irmãos e todos dormem no mesmo quarto, em beliches.” Você sente falta de irmãos, Cazuza? Mas você tem tantos, menino. Um beijo.”

Texto escrito por Caio Fernando Abreu (que era jornalista além de escritor) sobre Cazuza para a revista Around. O ano, infelizmente, me é desconhecido.

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O garoto que mudou meu mundo

Foi há 20 anos que Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu. É bem provável que escutando esse nome você pense que não sabe de quem eu estou falando, mas bem, na verdade você sabe sim. Provavelmente você conhece ele como Cazuza, apelido que recebeu ainda quando criança e que adotou ao longo de toda sua vida pessoal e profissional. Falar sobre a vida de Cazuza é falar sobre um tiro disparado no espaço, sobre um salto do alto de um prédio, sobre uma linha imaginária e uma oscilação constante no caminhar sobre a mesma.

Nadando contra a corrente sempre, Cazuza era de classe média alta, tinha uma mãe coruja e um pai presidente de uma das maiores gravadoras do país, a Som Livre. Caju, como era chamado pelo amigos, era burguês – por isso sabia bem como a burguesia fede – porra-louca, curioso e insaciável.

Desde pequeno freqüentou a casa dos grandes compositores da música popular brasileira: Tom Jobim, Vinícius de Moraes e um rol de nomes que são responsáveis pelas mais belas canções nacionais. No entanto, diferente das belas músicas que ouvia e compunha – como Faz parte do meu show – a vida do menino não era tão bela assim. Foi tentar encontrar a si mesmo nas drogas, no álcool, numa vida bem longe dos limites do racional. O menino não tinha limites… provou de tudo, disparou contra o sol e começou a se descobrir como compositor.

Caetano Veloso escutou uma de suas composições, a belíssima “Todo o amor que houver nessa vida” e cantou ela, pela primeira vez, em pleno Circo Voador no Rio de Janeiro, anunciando que aquela era a música do novo grande compositor brasileiro. E foi.

Primeiro com o Barão Vermelho e a energia daqueles meninos que chacoalharam o Rock in Rio 1985 com Bete Balanço, e depois em carreira solo pedindo ao Brasil, mostra tua cara.

Desde que eu me entendo por gente escuto Cazuza. Li biografias, tenho letras de músicas que nem foram gravadas em casa e escuto sempre o menino que mudou meu mundo. O fato de gostar de Cazuza não me faz ficar de olhos tampados para as coisas que ele fez em sua vida. Nunca vi sua conduta pessoal como exemplo pra ninguém, até porque esse “exemplo” é de alguém que morreu com 32 anos de idade e que, se tivesse agido de forma diferente, poderia estar por aqui até hoje contra a velocidade da luz, já que nada te impede de ser intenso sem ser inconseqüente.

Mas o menino que mudou meu mundo transformou suas angústias, seus medos, sua fome de vida nas músicas que mais me emocionaram, que mais me fizeram sentar no canto do quarto e cantarolar “É eu preciso dizer que eu te amo, te ganhar ou perder sem engano”. Foram nas músicas dele, na ansiedade em abraçar o mundo, em ter olhos de caleidoscópio, que encontrei muito dos meus medos, das minhas paixões, das minhas fraquezas.

Quando lançaram o filme Cazuza – O tempo não pára foi algo lindo de se ver, ouvir, sentir. A escolha de Daniel de Oliveira para o papel principal não poderia ser mais acertada. Interpretou Cazuza com a alma de Cazuza. Segundo o próprio Daniel, uma imagem gigantesca do cantor ficava colada na parede do seu quarto, pra acordar e já dar de cara com aquela que seria sua vida pelo resto do dia. Um fato curioso foi a seleção realizada para o filme: os atores testados recebiam um exame com resultado positivo de HIV em seu nome e os diretores avaliavam a reação subseqüente. Com olhos vidrados, Daniel mastigou e engoliu a folha inteira do exame.

Mas Cazuza – O tempo não pára tem uma falha grave. Como não falar de Ney Matogrosso na vida de Cazuza? Como não falar de uns dos maiores amores, amigo, cúmplice e confidente do cantor? Os motivos que fizeram a participação fundamental de Ney Matogrosso ter sido escondida no filme tem versões tortuosas até hoje. O fato é que faltou o Ney, e isso era fundamental.

Quarta-feira, 07 de junho de 2010 fez exatos 20 anos de morte de Cazuza. Coincidência ou não, Ezequiel Neves morreu no mesmo dia, vítima de um câncer que descobrira em janeiro do mesmo ano. Amigo, agenciador, poeta e compositor de músicas em parceria com o Caju – como Exagerado – Ezequiel Neves foi-se embora, mas não sem deixar de dizer: “Desde o dia que Cazuza morreu a maior presença na minha vida é a ausência dele”


Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju (Parte III)

Mas como é que fica o lado pessoal de vocês com tantas viagens? Como fica a família, os amigos?
Paulo: Tem esse lance da saudade, mas a gente tem um tipo de profissão que faz com que as pessoas que estão próximas da gente fiquem cada vez mais próximas da gente, e nos ajudem cada vez mais. É óbvio que a gente também sente falta de casa, tem horas que a gente pensa “puta, que saudades de casa”, mas ao mesmo tempo que a gente está distante é legal ver que a gente é reconhecido por isso. Não uso nem a palavra sacrifício, mas sim pela conduta do nosso trabalho, porque se a gente está fazendo isso e a tendência é crescer, é lógico que a gente vai ter que ficar mais longe de casa e vai ter que saber conciliar. Com isso a gente não está crescendo só em cima dos palcos, mas fora também, conciliando isso com nossa vida pessoal.

E o fato de vocês serem uma banda independente atrapalhou até que ponto na carreira, no crescimento?
André: É sempre complicado, mas hoje a gente nem fala mais esse termo “independente”, a gente fala que é um mercado de música. Cada artista tem uma forma de conseguir seu crescimento, seu sucesso, e a gente construiu a nossa forma de fazer isso. Foi uma forma difícil, cheia de problemas. Acho que o tamanho da banda sempre foi um empecilho, principalmente nos primeiros shows, porque era muito caro levar dez pessoas. A gente sempre trabalhou com uma noção de base: “vamos construir uma base forte de público, uma base que garanta nossa ida a esses lugares e garanta o nosso objetivo artístico.”
Paulo: Todo mundo achava o modelo do Móveis, – dez pessoas completamente diferentes – um modelo muito inviável. A gente já teve que tocar em fila indiana por causa de palcos minúsculos que nos apresentamos!A gente fala que o que a gente fez para dar certo foi se moldar ao que estávamos vivendo. Se a gente consegue ensaiar com dez caras, fazer uma música que agrada os dez caras, a gente tem dez cabeças pensantes que fazem coisas diferentes, então cada um pode fazer alguma coisa para ajudar na banda. Logo, o que era desvantagem para gente nós moldamos para que se tornasse em uma vantagem. E isso está acontecendo muito em todo o mercado: o artista está se adaptando ao mercado e se auto produzindo. E a gente só aprendeu isso de acordo com nossa necessidade.

E a idéia do “Móveis Convida”, como surgiu?
Paulo: Quando nós lançamos o primeiro disco em 2005, a gente fez uma festa de lançamento onde convidamos bandas e produtores pra participar desse evento com a gente. Foi muito legal porque todo mundo estava com muito gás e nós vendemos 2007 CD’s em uma semana. Nesse show tinham umas cinco mil pessoas e daí nós percebemos que isso podia ser uma forma de fomentar o trabalho de Brasília e ajudar a banda a se divulgar na cidade – porque a gente só era conhecido pelos universitários de Brasília. E daí vimos que dava pra continuar com esse projeto, que além de ajudar a cena de Brasília tem como objetivo também o intercâmbio de bandas do país todo. Isso porque tem muitas bandas que não tem oportunidade de tocar em Brasília, porque o espaço infelizmente ainda é carente. Assim a gente pode mostrar essas bandas para um público grande. Nesse ano tem a décima primeira edição e está dando muito certo. Nós já levamos Pato Fu, Los Hermanos, Teatro Mágico, Cravo e Carbono de Belém, Pata de Elefante do Sul, bandas da Argentina… A gente fez um festival que vingou e já tivemos várias formas de selecionar bandas. Teve uma vez que gente fez pela internet,com o pessoal mandando releases e as músicas pra gente ouvir… acho que eu escutei umas 120 bandas.

Mas e vocês, em que momentos você perceberam que a banda realmente tinha dado certo? Teve esse momento?
Paulo: Teve um momento em que caiu nossa ficha de que a gente tinha que parar e se organizar, que foi no Brasília Music Festival.
André: A gente sempre trabalhou em cima da necessidade…
Xande: A banda nunca teve um momento em que estourou, a gente foi crescendo aos poucos, desde 1998 a gente vem crescendo devagar.
Paulo: No caso do Brasília Music Festival, que é um dos maiores festivais de Brasília, a gente se viu ali no meio sem ter uma estrutura. Foi aí que a gente se deu conta que precisávamos de um técnico de som, precisava de roupa para tocar, precisava de um assessor de imprensa. A necessidade aconteceu ali.
E a gente nunca teve medo de errar. E o que a gente faz é com tanta vontade, com tanta alegria, que as coisas dão certo. Uma coisa boa não pode puxar uma coisa ruim!

Móveis e suas cabeças pensantes


Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju (Parte II)

É perceptível que o Móves não é apenas uma banda. É uma família também…

Paulo: A banda tem 12 anos e de 2005 pra cá o número de shows só tem aumentado.  Além das viagens que nós fazemos, o convívio é muito intenso durante o dia-a-dia mesmo, principalmente agora que nós temos nosso escritório e nosso estúdio. A gente está junto o tempo inteiro, e isso é legal porque você cria um vínculo familiar. Nem tudo é paz e amor, claro, toda família tem suas discussões, mas no geral a gente se dá muito bem. A gente gosta de viajar juntos, o que é fundamental. Eu acho isso muito importante, porque você imagina nesse mês em que a gente tem 12, 14 shows, a gente chega em casa e mal pára!A gente tem que gostar de viajar juntos… Se essa nossa amizade não existisse, se essa vontade de viajar juntos não rolasse, não faria sentido algum. A gente realmente é uma família, com brigas e tudo.

O André vira brincando para o Paulo

André: Você gostou da última viagem?

Paulo: Gostei, esse ano as viagens estão muitos boas… Como diz o Beto, esse ano é o ano sabático. Esse ano eu não brigo com ninguém, eu não reclamo.

André: Esse ano é o ano do descarrego!

Mas como foi começo dessa família? Vocês começaram tocando nas universidades, festas de república e até em bailes de formatura, né?

Paulo: Tocamos, nós tocamos em tudo. A gente tocou em festa a fantasia também!Teve uma festa a fantasia em que a gente era a Branca de Neve e os Sete Anões, então deu certinho! Na época tinha o Renato, que era baterista da banda, e ele foi a bruxa, o Borém (Eduardo – gaita) era o príncipe, o André a Branca de Neve e nós éramos os sete anões. Essa história foi muito legal.

E as experiências que vocês tiveram nesse período ajudaram muito a transformar o Móveis no que ele é hoje em dia?

André: Com certeza, a banda é uma inspiração pra mim na minha experiência de vida, fora da parte profissional, sabe? Acho que nessa época a gente aprendeu muito sobre o grupo, sobre desapego e sobre trabalho coletivo. Acho que a gente não só aprendeu como acredita nisso também. Acho que isso conduz nosso trabalho e conduz outras coisas também, até nos meus projetos de faculdade. Eu acabava sempre falando sobre a interdependência, da forma como dependemos uns dos outros na nossa vida. Como o cara que produz arroz pra você ter o arroz em casa, além do cara que cultiva, o cara que transporta até chegar na sua mesa. Então as coisas são muito ligadas, e a relação com o público também. E saber o que o espectador, o público transforma aquilo que você faz numa leitura pra vida dele, na forma como ele se relaciona. E a nossa forma é sempre a forma mais interativa, a forma que inclui.

Paulo: E isso faz com que a gente tenha um respeito muito grande, não só dentro da banda, mas com o público em si. Pra gente o público sempre é mais importante do que qualquer evento, independente da gente tocar pra quarenta mil pessoas ou tocar pra vinte. A gente coloca a mesma energia para os dois shows. As pessoas mistificam muito essa coisa de ser um artista conhecido. No caso do Móveis a gente já passou por todos os percalços de tocar pra pouco público, principalmente em relação a equipamento, mas sempre com aquela alegria de tocar, então o que a gente procura na realidade é quebrar esse estigma de que “ah, o cara fez um programa de televisão, tocou pra não sei quantas mil pessoas”. Não, pra gente não tem isso! Não existe essa distinção na hora que a gente está tocando ou na hora que a gente tem que ter um contato com o público. O que a gente procura é isso; 90% do que a gente faz tem importância do público, os outros 10% que precisa é que a gente toque bem. A gente precisa deles, independente de ser muito ou pouco público, fazendo parte da música da gente.

André: É meio que transformar todo o evento em uma oportunidade, independente da forma. É sempre uma oportunidade pra gente: do público conhecer mais nosso trabalho e da gente aprender. Na vida é assim também, né…

(Continua…)

Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju (Parte I)

Passagem de som do Móveis: animação e mistura de ritmos

Quinta-feira a tarde e no Sesc/Bauru rolava a passagem de som da banda Móveis Coloniais de Acaju, que se apresentaria ali mesmo as 21 horas do mesmo dia.
A banda, que nasceu há 12 anos em Brasília, desde o começo já se destacava  por algumas diferenças em relação as outras bandas. Afinal, eram 10 pessoas em cima do palco apresentando um som que mistura rock, ska, música brasileira e influências do leste europeu. Como eles mesmos gostam de falar, é quase uma “feijoada búlgara”: uma mistura de tudo um pouco e que acaba resultando no Móveis.
Enquanto curtia a passagem de som, durante os intervalos dava pra conversar um pouco com os meninos da banda. Deu para perceber logo de cara que o carisma apresentado nos show não fica restrito apenas ao palco. Risadas, brincadeiras, uma felicidade de conversar e contar sobre seu trabalho e seu público fica evidente desde o primeiro momento com o Móveis.
Durante uma folguinha do André, vocalista da banda – era a vez dos meninos testarem o som – começou nossa entrevista, super casual e totalmente descontraída.  Aproveitando a conversa que estava rolando com a Tainá – que também foi entrevistar o Móveis – sobre a venda de discos, a gente começou nossa entrevista…

O material de divulgação da banda é vendido por vocês mesmo. Isso aproxima ainda mais o contato com o público?

Nossa intenção sempre é estar próximo do público. É natural do artista essa vontade de querer dividir as coisas com seu público, dividir o pensamento, uma opinião, um sentimento. A gente nunca criou e nem quer cria uma relação hierárquica de artista e público, de tipo “somos os fodões” que devem ser idolatrados… Não existe isso, a gente é igual a todo mundo. Eu acho que o que aproxima um artista do público é viver coisas parecidas, e a gente vive coisas que são próximas do público. Isso é algo que a gente sempre buscas: aproximação. A gente não quer criar nunca essa ilusão de que a gente é melhor

Vocês fizeram uma parceria com a Trama pra disponibilizar as músicas de vocês na internet. Essa idéia surgiu ainda pensando nesse lance de aproximação?

Desde 2003 a gente coloca nossas músicas para baixar na internet, e foi uma mídia alternativa que a gente encontrou pra divulgar nosso trabalho. A gente não vê o MP3 na Internet como produto, a gente vê isso como meio de divulgação. Com isso, o nosso primeiro disco – que a  colocou pra baixar inteiro na internet –  teve uma vendagem de quase sete mil discos. Tiveram as vendas da Trator também, mas foi uma porcentagem muito pequena, a maior parte das vendas foi em show. E a venda em shows é um reflexo do download na internet.

E como ficou esse contato, essa receptividade com o público na Europa? A diferença de tocar aqui no Brasil e lá fora, na turnê de 2008, foi muito grande?

Nossa, foi surpreendente. A gente estava morrendo de medo… Meu inglês é horrível, a gente ia cantar tudo em português e alguns lugares que a gente ia passar não falavam nem inglês! A gente tocou na República Tcheca, por exemplo, onde só falava tcheco, russo e alemão.
E a gente percebeu que a música ultrapassa a língua e que inclusive a mensagem que ela passa está além da língua. Foi fácil eles entenderem a mensagem mesmo sem saber português, até porque de certa forma a noção de coletivo, de estar todo mundo em cima do palco, do grupo interagir entre si e com o público está ali. Lá na Europa a gente fez tudo que a gente faz aqui e a galera gostou. Eu até tentei falar um pouco da língua deles e aprendi um pouco de tcheco.

Quanto tempo demorou a turnê?

Foram menos de vinte dias e a gente fez seis shows. Três shows na Alemanha, um na Bélgica, um na Suíça e um na República Tcheca.

Nesse instante alguém chamou o André, era hora de voltar para o palco e terminar a passagem de som. Já era mais de 16 horas e o ensaio já estava chegando ao fim.
Depois de todo mundo conferir o som dos instrumentos e a iluminação, a banda começou a se preparar para voltar ao hotel onde iriam descansar, comer e se preparar para o show da noite. A van já estava esperando os meninos, mas o André e o Paulo (sax) preferiram continuar por ali pra fazermos a segunda parte da entrevista. Enquanto isso, o Beto (flauta) e o Xande (trombone) ficaram ali por perto mesmo, comendo um salgado e esperando o resto do pessoal para voltar para o hotel.
E a entrevista continuou dessa vez com o Paulo fazendo companhia para o André na conversa.

Quais são as influências pessoais e aquelas que vocês usam para fazer o som de vocês?

As influências são bem diferentes, cada um gosta de uma coisa e às vezes elas batem. Tem muita gente da banda que gosta de Beatles, muita gente que gosta de Big Band, que é uma banda dos anos 50… E fora isso tem umas coisas que são bem diferentes. Uns gostam muito de samba, outros gostam mais de jazz e alguns ainda preferem música popular brasileira como Djavan e João Bosco. As influências são as mais variadas possíveis, não tem uma influência só para o Móveis. Talvez, a única unanimidade entre a banda seja Paralamas do Sucesso, que tem essa coisa dos metais, de fazer um som mais ska. Mas acho que realmente é a única unanimidade, porque somos dez pessoas diferentes que pensam de forma diferente, mas com o mesmo objetivo. E toda essa mistura resulta no que é o Móveis hoje.

"A gente nunca criou e nem quer cria uma relação hierárquica de artista e público"

(Continua…)

The Almighty Devil Dogs

Já eram mais de sete e meia da noite do último sábado, 22 de maio, quando comecei a abrir espaço entre a multidão que se aglomerava no parque Vitória Régia. Multidão igual aquela só em uma mesma data no ano: Virada Cultural. Pessoas apinhadas, em rodinhas, cantarolando algumas músicas enquanto crianças corriam pelo gramado: era assim o começo da Virada Cultural em Bauru, com o pessoal se aquecendo para toda a programação que viria em seguida.

Enquanto ia caminhando, minha cabeça pensava em várias coisas ao mesmo tempo: gravador está funcionando? Crachá está comigo? Deixei alguma coisa, que não deveria, em casa? Será que consigo entrar? A ‘missão’ era entrar nos bastidores da Virada e conversar com uma das bandas que acabara de se apresentar, o The Almighty Devil Dogs, uma banda aqui da cidade que já tinha o som conhecido por boa parte do público que estava ali, por suas apresentações em festas de república e eventos bauruenses.

A entrada para os camarins ficava atrás do palco, num canto a esquerda, onde dois seguranças tampavam a visão do que estivesse acontecendo lá dentro… em meio a tudo isso, chegavam músicos e instrumentos do pessoal que logo em seguida começaria as apresentações. Com toda aquela conversa de “eu faço Jornalismo na Unesp e queria fazer uma entrevista com o pessoal da banda..”, comecei a tentar convencer o segurança de que sim, eu queria e ia entrar de algum jeito pra conseguir a entrevista. Depois de conversar com a responsável do evento logo fiquei com a sentença ‘ah espera aí fora que daqui a pouco eles saem’ – e eu pensando em como iria gravar uma entrevista com um mínimo de decência do lado daquelas caixas de som que faziam meu tímpano querer estourar…

Antes de sair, no entanto, a mulher foi até os caras da banda para mostrar quem eu era e deixar avisado que iria conversar com eles na saída. Já esperando que ainda fosse demorar algum tempo até reunir todos os instrumentos e a banda toda resolver sair, tomei um susto quando uns dos caras veio até mim e disse “entra aqui”.

E lá fui eu, entrando no camarim da Virada toda empolgada. Assim que entrei na sala – a mesa cheia de frutas não passou despercebida – já veio mais um cara da banda me cumprimentar e conversar comigo. E foi assim, mais simples do eu poderia imaginar!

A alegria do Vinícius – guitarrista – que conversou comigo, não ficava apenas no tom de voz com que respondia minhas perguntas… Ficava no jeito como sorria a cada vez que pronunciava a palavra “banda”, a casa brilho no olho quando contava sobre os momentos que anteciparam a apresentação, a cada nova risada que dava quando tentava explicar a infinidade de influências que a banda tem – desde o punk rock e surf music clássico até filmes de terror.

Depois de terminada a entrevista sai de lá com a sensação de que aquilo sim é o que eu chamo de “tesão” pela música, mesmo a banda já tendo sete anos deestrada. Sabe aquela paixão que normalmente você vê nas bandas em começo de carreira e que espera de verdade que eles ainda guardem isso por muito tempo? Então… é aquela sensação de que amor pela música que você faz, pelo som que você toca, vai bem além do que cifras e estrelato podem trazer: é ver que reconhecimento é algo que ainda pode fazer seu olho brilhar, independente de tempo ou espaço.

Foto retirada do facebook oficial da banda "The Almighty Devil Dogs"