Como fazer um filme de suspense

Semana passada tentei corrigir uma falha grave da minha parte cinéfila e assisti Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock pela primeira vez. Taí um filme que me surpreendeu e que merece ser revisto, não apenas pelo enredo excelente, mas pela maneira sutil como mostra muito bem um sentimento/característica – ou a forma como você preferir chamar – que o ser humano tem em relação aos outros.

Pra mim o que leva o personagem principal a acompanhar a vida de seus vizinhos tem muito menos a ver com sua perna quebrada e sua falta do que fazer, do que com uma característica primária do ser humano que nos faz ter uma pontada de curiosidade pela vida alheia. E não me venha com falso moralismo, porque compartilhar da ação de Jeff não te eleva a categoria de fofoqueiro do ano nem de mexeriqueiro.

E aí que assistindo o filme, por mais que em algumas passagens role uma censura pela “espionagem” alheia, o enredo leve essa ideia de uma forma brilhante e delicada. Porque afinal o que poderia ser “oh god, muito feio” acaba sendo o motivo pelo qual o personagem principal descobre o crime cometido na outra casa. (Spoiler de filme de 1954?)

Mas essa bela jogada passa até despercebida perto das quase duas horas de ansiedade que tomaram conta de mim, até porque o filme de Hitchcock se passa na primeira metade da década de 50 e como todos os filmes dessa época tem uma linguagem, senso estético, narrativa e – fundamental, – tempo inteiramente diferente dos filmes de agora.

Já escutei muita gente reclamando que filmes antigos são chatos de se assistir porque “nunca acontece nada”, e isso não deixa de ser verdade no tocante a diferença de tempo de narrativa dos mesmos. Pra mim, no entanto, essas mudanças de características são tão mais importantes e envolventes do que a maneira como qualquer filme dos anos 2000 possa ser, mas tenho de concordar que as reações provocadas por ambos acabam sendo, justamente pela diferença de suas produções, bem diferentes.

E aí que acontece a magia de Janela Indiscreta.

Longas de suspense são pra mim um dos gêneros mais complexos de cinema, e particularmente – me perdoem os entendidos de cinema, críticas são bem-vindas nos comentários – acho que filmes antigos tem um problemão em conseguir captar essa essência. Todas as características parecem conspirar contra, sérião. Mas na obra de Hitchcock há algo que te prende de uma maneira meio maluca naquela história. Passando por cima de nuances características dos filmes da época, o diretor dá uma grande surpresa no público ao se apropriar exatamente dessas características para criar seu enredo.

Nada de efeitos especiais, computação gráfica, histórias de fantasmas ou qualquer outro plus que você imagine. Uma história limpa, passada o tempo todo dentro de um mesmo cômodo, com todas as prováveis problemas e dificuldades de um filme de suspense e que, no entanto, te deixa à flor da pele e com aquela vontade maluca de não desgrudar a bunda da cadeira enquanto aquilo não terminar. Pois é!

Pra ajudar comecei a ler “Como a geração sexo drogas e Rock’n’roll salvou Hollywood”, de Peter Biskind, que fala sobre sua “geração de ouro” dos anos 70. Por mais que o filme de Hitchcock se passe na década de 50 – o diretor é da primeira geração de grandes nomes que inovaram o cinema de Hollywood – percebi que ali já se desenhava a grande sacada de todos os grandes diretores que mostraram o que é de fato cinema. Estilo. O que até então não existia, e que você passa a ver com uma clareza assustadora, é a mão, a marca característica do diretor em suas produções.

Fato é que Janela Indiscreta é deveras bom, e pra você que acha que nunca acontece nada em filmes antigos, bom, taí um bom longa pra te fazer mudar de ideia.

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