Walter Rodrigues


Na última quarta-feira, 15 de setembro, uma coisa meio mágica, meio apaixonante aconteceu comigo. Pude conhecer Walter Rodrigues, que estava em Bauru para o evento FIB Fashion Design, realizado nos dias 15 e 16 de setembro pela FIB – Faculdades Integradas de Bauru. Eu, que sou confessa admiradora do seu trabalho, fiquei felicíssima em cobrir o evento. Além de uma palestra super esclarecedora sobre temas que tangem a moda num geral, mas também sobre seu processo de criação, ainda consegui bater um papo muito legal com o estilista depois da palestra. Brincando com o fato de eu ser jornalista (a posição do jornalista de moda foi citada várias vezes durante sua palestra), Walter foi extremamente atencioso e me deixou com a sensação de que conhecer suas inspirações e seu trabalho de pesquisa só aumentou ainda mais minha admiração.
Logo no começo, Walter contou sobre o surgimento de seu gosto pela Moda, já que antes disso ele pensou em seguir carreira como historiador ou antropólogo. Segundo ele, foi lendo uma Vogue Brasil de anos atrás, em uma matéria escrita por Regina Guerreiro, que percebeu seu verdadeiro gosto pela área. Saiu de Tupã e foi para Presidente Prudente trabalhar em uma loja de roupas e, a partir de então, estudou tudo que lhe caísse as mãos. No início da carreira Walter trabalhou em algumas revistas, como a Manequim, e em suas primeiras coleções muitos dos materiais usados era garimpados na 25 de março (segundo o estilista a 25 é um lugar que ele adora freqüentar até hoje). Com pesquisas mais profundas sobre o assunto, Walter analisa sua carreira em cinco grandes fontes de inspiração:

O mais importante de suas criações reside no fato de como as idéias surgem. Viagens, histórias, pequenos detalhes criam forma em suas mãos e seu processo de criação é de uma riqueza de detalhes imensa. Acho que eu só tive real dimensão de como as coisas realmente funcionam no processo de confecção de uma coleção durante sua palestra. Há uma história gigantesca por trás de tudo aquilo. Segundo Walter seu trabalho é muito autoral – por isso odiar tanto a palavra tendência – e que, hoje em dia, ele tem a liberdade de fazer exatamente aquilo que gosta, sem se preocupar em agradar a todos. Primeiro porque seu trabalho não é voltado para ‘massa’ e segundo porque seu gosto é definido no simples. “A simplicidade da peça é que torna ela atemporal”.
Além de falar de temas importantes como a moda no mercado de trabalho e a infinidade de empregos e outra indústrias que ela aciona, Walter também desmistificou essa ‘inacessibilidade’ da Moda.

O ponto mais encantador de todos foi a apresentações de seus cadernos de ‘inspiração’. Esses são, na verdade, os cadernos que o estilista monta em cada coleção e que acabam recebendo um pouquinho de tudo: de textos e desenhos até fotos, muitas fotos de lugares, pessoas e países com culturas muito ricas.



Abaixo segue na íntegra a resposta de Walter sobre dois grandes temas: a importância de sua parceria realizada com a C&A há alguns anos – e essa tendência crescente entre grandes marcas e fast-fashion – e se há diferença entre fazer moda em terras brasileiras e se apresentar no mercado internacional.

“Eu acho que dentro dessa discussão do que é moda, a democratização desse processo é muito verdadeira. Isso na verdade começou a surgir no momento em que Karl Largerfeld fez uma coleção para a H&M, que é uma loja popular na Europa, e ele fez com que a coleção se esgotasse no mesmo dia. Porque na verdade há uma demanda por esse glamour, por toda essa história que nós construímos em torno do autoral, do verdadeiro. Toda essa especificidade, todo esse rigor tem um custo, consequentemente pra eu ter a possibilidade de fazer alguma coisa que eu acredito e que eu amo, eu tenho que fazer isso num volume muito pequeno e que acaba saindo num custo muito alto e eu não consigo democratizar isso. Creio que todo esse envolvimento e poder da marca surge como desejo de consumo. Consequetemente se eu tinha a chance de trabalhar um veículo como uma C&A pra mim era fascinante, pois eu podia trabalhar os meus códigos de silhuetas, de imagens, da minha idéia de cor pensando numa roupa que não podia ter zíper, porque se eu colocasse zíper ela ia sair mais caro e ia sair do padrão do que é C&A. Então eu tive que pensar que a modelagem tinha que lembrar Walter, que a construção tinha que lembrar Walter, mas que na realidade o custo tinha que ser C&A. Então isso foi um exercício muito grande de superação, de descoberta, de tecidos, de trabalho de equipe, de trabalho de modelagem. Assim as pessoas decodificam aquela imagem sofisticada que a gente tem como marca Walter Rodrigues, mas com construções de modelagens que sejam inerentes a idéia e ao preço da C&A.É magnífico, um exercício e tanto! Quando eu fui convidado gerou um certo stress porque como eu sempre trabalhei com artigos de luxo, a gente ficou muito preocupado que as lojas que vendiam as nossas roupas não gostassem do nome Walter Rodrgues na C&A, e no final de toda a história eu cheguei a conclusão que eu preferiria me arrepender de ter feito do que de não ter feito.E logo em seguida tudo teve uma mídia incrível, nós tínhamos uma propaganda na TV onde eu aparecia, tinham 110 lojas C&A que vestiam cabides Walter Rodrigues, sacola Walter Rodrigues, catálogos Walter Rodrigues. E quando terminou todo o processo da C&A eu cheguei para uma das minhas clientes mais críticas e perguntei a ela o que tinha achado. E ela me disse que tudo fora ótimo, que tinha adorado e que a vendedora da loja que não tinha dinheiro e nem lugar pra ir com minha roupa ficou felicíssima de poder comprar Walter Rodrigues na C&A. Então, de certa forma eu estava atingindo um público que até então eu não imaginava que podia atingir que era a própria pessoa que vendi a aminha roupa. Isso para mim é absolutamente fascinante.”

“Eu não enxergo essa diferença porque eu acho que na realidade roupa é roupa, independente de onde ela é feita ou do carimbo de made in dela. Ela tem que ser sofisticada, bem-feita, elegante e tem que, acima de tudo, satisfazer o desejo de um consumidor mundial hoje, então não acho diferente. Eu acho que para nós pode parecer mais difícil porque fazer um desfile no Louvre custa no mínimo uns 60 mil euros . Essa é a grande diferença.”

Anúncios

2 pensamentos sobre “Walter Rodrigues

  1. Paulinha, achei esse post ótimo! E curioso, porque eu pensei em fazer design e tô fazendo história, o inverso dele. Acho que eu piraria fácil com cadernos de inspiração como você os descreveu!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s