A hipocrisia manda lembranças

Bom, como disse no último texto que postei aqui, queria escrever sobre algo que me deixou chateada há alguns dias… Só que, na verdade, para começar esse post tenho que deixar claro que usei a expressão errada. Chateada é muito pouco, muito mísero perto do que realmente senti pelo que aconteceu. Eu fico chateada quando alguma coisa que eu realmente queria que desse certo dá errado, ou quando tenho um dia from hell que me tira do eixo. Bom, o caso não é esse. Primeiro porque isso não me deixa chateada, me deixa possessa, me deixa com uma sensação de miudeza perto de tanta hipocrisia que a gente escuta por aí, perto de um discurso tolo, sem fundamento e sem respeito que é propagado em pleno século XXI, quando a gente acha – ou pelo menos espera – que as pessoas tenham aprendido pelo menos um pouco depois de tantos anos de História.

Acontece que durante a semana passada e minha estadia em Leme tive a infelicidade de ouvir um comentário de um certo apresentador de TV quando mudava de canal. Não vou citar canal, programa ou apresentador aqui – até porque, infelizmente, esse é um tipo de discurso que se estende a muitas pessoas, mas que por não terem acesso à grande mídia acabam guardando isso para si ou para as pessoas próximas, – então o nome do programa e do dito cujo que disse essas palavras é o de menos. Mas enfim, lá estava eu navegando na internet quando minha mãe liga a TV e a seguinte frase sai da tela como um soco no meu estômago: “Porque olha, se você for ateu, não precisa nem assistir meu programa”.

Juro que por um momento achei que tinha escutado errado, mas não, não apenas escutei certo como a pessoa continuou com o mesmo discurso sem nexo durante 10 minutos. Em seu discurso ainda entraram frases como “Porque se não houvesse ateus no mundo, não haveria nenhuma barbaridade, nenhuma dessas coisas ruins” e ainda “Porque eu tenho certeza que quem mata, quem usa drogas é ateu”.

Rir para não chorar. Para começar não tomei as dores do comentário por ser atéia, até porque não sou, mas independente de não acreditar no Deus que outros acreditam, ou achar que minha vida está escrita numa carta de tarô ou ainda acreditar que devo sempre recorrer a Buda se algo der errado na minha vida, a minha religiosidade é o que menos conta aqui. O fato lamentável e questionável – e que já me fez ter inúmeras “discussões” com minha mãe sobre o assunto – é porque as pessoas têm a mania, ou melhor, a prepotência de achar que seu Deus ou sua fé são maiores do que a dos outros. Eu sei que religião é uma questão complicada de se discutir, mas aqui a questão não é especificamente religião, mas sim espiritualidade – o que diga-se de passagem é uma coisa muito diversa da primeira – e como muita gente prega um discurso de “ah, temos todos que nos unir” e “somos todos irmãos”, mas não conseguem sequer aceitar a idéia de alguém que acredite e tenha fé por alguma coisa diferente da dele. Isso sim eu chamo de hipocrisia.

Extremismo é ruim em qualquer situação e acho que já tivemos milhares de acontecimentos que provam o quanto desastroso isso pode ser. O mais complicado ainda de falar em espiritualidade e respeito no Brasil é que todo mundo já faz aquela associação de espiritualidade com religião e transforma isso em testa de ferro, afinal somo um país extremamente religioso, de maioria católica (61% dos brasileiros) e que acha que isso deve ser tratado diferente de outras coisas. Se eu torço pro Santos e fulano pro Corinthians tudo bem, mas se eu sou protestante e fulanio é ateu, católico, budista, ah não, aí ele não é “normal”, não é “bom”. Ou mesmo que isso não seja dito às claras, fica algo subetendido de exclusão, de sensação de alguém estar faltando com a razão. Razão?Mas eu pergunto, que razão, gente? Porque quem acredita em X é mais certo do que quem acredita em Y?Não é visível que espiritualidade é uma coisa pessoal e intransferível? E que isso não tem nada, absolutamente NADA a ver com razão, tem a ver com fé?

Mas nem todo mundo pensa assim, e ainda tem gente que faz caridade, que diz amar ao próximo, que diz ser o exemplo pras outras pessoas, mas ainda não entende coisas básicas da condição humana: respeito e compreensão.

Triste, muito triste.

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4 pensamentos sobre “A hipocrisia manda lembranças

  1. na verdade, acho que a questão não é nem de religiosidade nem de espiritualidade. é de tolerância. acho que se o apresentador tinha que ter feito algum comentário exdrúxulo, o mais coerente seria “não aconteceriam esses crimes se as pessoas fossem tolerantes”.

    ele só pôde falar o que disse porque moramos num país em que a maioria se diz religiosa. porque se a maioria fosse atéia ou agnóstica, e de fato nenhum deles pudesse ver o tal programa a audiência seria baixíssima e o apresentador não precisaria viver de polêmicas.

    acho que eu não acredito em deus nem em ateus.

  2. Realmente é triste que algumas pessoas pensem assim. Você está fazendo sua parte de colocar seu ponto de vista diferente, e isso é mto legal!!

    Quanto à sua pergunta no meu blog, eu não trabalho com moda não, é só diversão! Eu sou advogada!! hehehe

    Beijos

    Manoella
    in-vestindo.blogspot.com

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