Ritual familiar

Começa meio que discretamente. Uma ou outra pessoa entra pela soleira da porta e cumprimenta as pessoas sentadas no sofá vendo TV. De repente, elas não param mais. Pessoas entrando por aqui e por ali, cumprimentos soltos, frases de “mas você demorou, hein?” e beijinhos e abraços enchem o lugar. Alguém solta alguma piada e uma criança começa a correr de cá para lá, deixando todo mundo louco e com medo que o corre-corre leve a toalha da mesa, e tudo que tem nela, abaixo. É quase típico, quase uma cena que me acostumei a ver todos os domingos nos meus últimos vinte anos de vida. Aliás, dezoito, porque nos dois últimos anos fugi à regra da família e me distanciei um pouco desse quase ritual.
Isso se chama família grande, isso se chama família unida, isso se chama família.
Minha família não é uma família qualquer, é aquela família gigantesca em que todo mundo faz parte da vida do outro, em que os domingos na casa da avó são sagrados, em que qualquer motivo – qualquer mesmo – resulta numa reunião com muita comida e conversa.
Aí tem a avó espevitada, que passaria tranquilamente por uma jovenzinha de 18 anos que não pára de falar e tem um pique incrível pra aproveitar a vida, tem a tia fofa que trata todo mundo com aquele jeitinho e cara feliz, tem os tios malucos que adoram fazer piadinhas sobre sua vida pessoal e ficam discutindo futebol em quase 70% do dia, tem os primos pequenos-grandes que estão na idade de correr muito e ficar cheio dos ‘Porquês?”.
Natal, Páscoa, Ano-Novo, Dias dos Pais, Dia das Mães…sempre estão todos lá, sempre reunidos celebrando bem mais a própria união do que a data em si. Em dezoito anos de vida me acostumei com esses momentos de tal forma que já faziam parte do meu cotidiano. Não éramos apenas nós, éramos todos nós.
Mas as coisas mudaram, o tempo passou…
Mudei de cidade, passei a chegada do ano em outros lugares, não estava mais aos domingos para visitar a casa da avó e tomar o café da tarde na grande mesa com todos. Mas hoje, em mais uma festinha de comemoração ao aniversário de um dos nossos, senti aquela mesma atmosfera dos anos passados. As crianças já não correm tanto, – apesar de os porquês continuarem – a avó ainda continua tagarela e os tios ainda têm as mesmas histórias e piadas pra contar. Mas o mais engraçado é ver o quanto eu ainda fico feliz com as pequenas conversas, pequenos risos e pequenos tapinhas de “Nossa, quanto tempo… tá diferente!”.
Já é hora de ir embora e o primeiro dá sinal que vai levantar. Um alarme invisível é ligado: todos também vão, um atrás do outro. Na saída, mais conversas e pequenas combinações da próxima reunião familiar…

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3 pensamentos sobre “Ritual familiar

  1. Oi, Paulinha! Muito bom o seu blog… O layout dele ficou uma gracinha.
    Nossa, eu tava pensando nisso esses dias, que foi aniversário da minha tia… acho que todo mundo tem uma fase que se afasta da família, mas é engraçado como parece que a essencia não muda, né? Não é à toa que eu sempre digo que minha família é meu porto seguro… Pelo visto vc também acha isso, né?
    ótimo post! :D
    beijooos

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