Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju (Parte I)

Passagem de som do Móveis: animação e mistura de ritmos

Quinta-feira a tarde e no Sesc/Bauru rolava a passagem de som da banda Móveis Coloniais de Acaju, que se apresentaria ali mesmo as 21 horas do mesmo dia.
A banda, que nasceu há 12 anos em Brasília, desde o começo já se destacava  por algumas diferenças em relação as outras bandas. Afinal, eram 10 pessoas em cima do palco apresentando um som que mistura rock, ska, música brasileira e influências do leste europeu. Como eles mesmos gostam de falar, é quase uma “feijoada búlgara”: uma mistura de tudo um pouco e que acaba resultando no Móveis.
Enquanto curtia a passagem de som, durante os intervalos dava pra conversar um pouco com os meninos da banda. Deu para perceber logo de cara que o carisma apresentado nos show não fica restrito apenas ao palco. Risadas, brincadeiras, uma felicidade de conversar e contar sobre seu trabalho e seu público fica evidente desde o primeiro momento com o Móveis.
Durante uma folguinha do André, vocalista da banda – era a vez dos meninos testarem o som – começou nossa entrevista, super casual e totalmente descontraída.  Aproveitando a conversa que estava rolando com a Tainá – que também foi entrevistar o Móveis – sobre a venda de discos, a gente começou nossa entrevista…

O material de divulgação da banda é vendido por vocês mesmo. Isso aproxima ainda mais o contato com o público?

Nossa intenção sempre é estar próximo do público. É natural do artista essa vontade de querer dividir as coisas com seu público, dividir o pensamento, uma opinião, um sentimento. A gente nunca criou e nem quer cria uma relação hierárquica de artista e público, de tipo “somos os fodões” que devem ser idolatrados… Não existe isso, a gente é igual a todo mundo. Eu acho que o que aproxima um artista do público é viver coisas parecidas, e a gente vive coisas que são próximas do público. Isso é algo que a gente sempre buscas: aproximação. A gente não quer criar nunca essa ilusão de que a gente é melhor

Vocês fizeram uma parceria com a Trama pra disponibilizar as músicas de vocês na internet. Essa idéia surgiu ainda pensando nesse lance de aproximação?

Desde 2003 a gente coloca nossas músicas para baixar na internet, e foi uma mídia alternativa que a gente encontrou pra divulgar nosso trabalho. A gente não vê o MP3 na Internet como produto, a gente vê isso como meio de divulgação. Com isso, o nosso primeiro disco – que a  colocou pra baixar inteiro na internet –  teve uma vendagem de quase sete mil discos. Tiveram as vendas da Trator também, mas foi uma porcentagem muito pequena, a maior parte das vendas foi em show. E a venda em shows é um reflexo do download na internet.

E como ficou esse contato, essa receptividade com o público na Europa? A diferença de tocar aqui no Brasil e lá fora, na turnê de 2008, foi muito grande?

Nossa, foi surpreendente. A gente estava morrendo de medo… Meu inglês é horrível, a gente ia cantar tudo em português e alguns lugares que a gente ia passar não falavam nem inglês! A gente tocou na República Tcheca, por exemplo, onde só falava tcheco, russo e alemão.
E a gente percebeu que a música ultrapassa a língua e que inclusive a mensagem que ela passa está além da língua. Foi fácil eles entenderem a mensagem mesmo sem saber português, até porque de certa forma a noção de coletivo, de estar todo mundo em cima do palco, do grupo interagir entre si e com o público está ali. Lá na Europa a gente fez tudo que a gente faz aqui e a galera gostou. Eu até tentei falar um pouco da língua deles e aprendi um pouco de tcheco.

Quanto tempo demorou a turnê?

Foram menos de vinte dias e a gente fez seis shows. Três shows na Alemanha, um na Bélgica, um na Suíça e um na República Tcheca.

Nesse instante alguém chamou o André, era hora de voltar para o palco e terminar a passagem de som. Já era mais de 16 horas e o ensaio já estava chegando ao fim.
Depois de todo mundo conferir o som dos instrumentos e a iluminação, a banda começou a se preparar para voltar ao hotel onde iriam descansar, comer e se preparar para o show da noite. A van já estava esperando os meninos, mas o André e o Paulo (sax) preferiram continuar por ali pra fazermos a segunda parte da entrevista. Enquanto isso, o Beto (flauta) e o Xande (trombone) ficaram ali por perto mesmo, comendo um salgado e esperando o resto do pessoal para voltar para o hotel.
E a entrevista continuou dessa vez com o Paulo fazendo companhia para o André na conversa.

Quais são as influências pessoais e aquelas que vocês usam para fazer o som de vocês?

As influências são bem diferentes, cada um gosta de uma coisa e às vezes elas batem. Tem muita gente da banda que gosta de Beatles, muita gente que gosta de Big Band, que é uma banda dos anos 50… E fora isso tem umas coisas que são bem diferentes. Uns gostam muito de samba, outros gostam mais de jazz e alguns ainda preferem música popular brasileira como Djavan e João Bosco. As influências são as mais variadas possíveis, não tem uma influência só para o Móveis. Talvez, a única unanimidade entre a banda seja Paralamas do Sucesso, que tem essa coisa dos metais, de fazer um som mais ska. Mas acho que realmente é a única unanimidade, porque somos dez pessoas diferentes que pensam de forma diferente, mas com o mesmo objetivo. E toda essa mistura resulta no que é o Móveis hoje.

"A gente nunca criou e nem quer cria uma relação hierárquica de artista e público"

(Continua…)

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