No lado de lá

Ela tem quatro anos. Quatro anos de um olhinho verde, miudinho, miudinho, daqueles que parecem olhinhos de gato e que todo mundo quando vê faz questão de falar, “dá até vergonha o olho dessa menina”. Dá para perceber a idade dela no tamanho do corpinho, no jeito ainda titubeante de se expressar com os braços que dão até certa graça naquela falta de coordenação característica. Aí você repara que o andar empinado não condiz com o todo. Nariz arrebitado, pisada forte, tronco ereto, cabelos caídos até o ombro em grandes cachos loiros. Extremamente loiros. Uma mistura de pequenez com gênio forte, como se isso fosse algum pecado… A menina gosta de caminhar pelo corredor da casa da avó sempre que pode. Na verdade não há nada por lá, já que os móveis foram retirados há muito tempo, desde quando o avô morreu. Sem lembranças para afugentar suas noites de sono, a avó preferiu assim: corredor limpo. A menina mal sabe o porque daquele abismo de paredes, apenas gosta de ficar por ali sempre que possível, passeando pelo corredor e espiando pelo buraco da fechadura da única porta do lugar. O buraco da fechadura. O quartinho fica fechado pela falta de utilidade que tem, afinal era escritório do avô e ali ainda restam umas poucas coisas que o finado deixou. As únicas que a avó ainda quis guardar. A menina sabe disso, até porque a avó – depois de vê-la tantas vezes olhando pelo buraco daquela fechadura – explicou para a menina que ali não havia nada demais. Não hava necessidade de gastar as longas horas que passava na frente da porta, não havia mundo encantado por trás daquilo. Nessa horas, os olhinhos verdes da menina fitavam o vazio, na décima quinta explicação que lhe era dada sobre o assunto e, por fim, repetia a mesma frase: “Eu sei, vó”. E ela realmente sabia. Sabia todos os móveis que haviam ali dentro, sabia a importãncia que cada um tinha para o avô, sabia de todas essas verdades que a avó contava. Ela não achava que havia mundo encantado lá dentro, mas mesmo assim gostava de ficar observando pela fechadura. Simples. Certa vez a avó cansou-se daquilo, daquelas inúmeras explicações.. Não era normal uma criança passar tanto tempo fazendo algo tão esquisito. Cansou-se tanto que mandou abrir a porta e largá-la assim, escancarada para qualquer um que cruzasse o corredor. Quando a menina chegou e deparou-se com a cena, parou. Parou com os pezinhos pequeninos coladinhos. Deu meia volta. Dali em diante apenas voltava para cruzá-lo quando precisava andar pela casa, apenas de passagem.

Dias depois foi brincar na casa de uma ‘amiga’.Empurrada pela mãe que já tinha ficado cansada de vê-la sempre sozinha pelos cantos. Brincou com as meninas, correu pela casa, fez seus quatro anos de idade virarem realidade. Até que em uma fração de segundos caiu. No meio da correria mal notara um desnível do chão. Caiu de cara, cabelos cobrindo o rosto. As meninas começaram a rir em pequeninas gargalhadas, achando graça na cena da menina caída. Sentou, tirou os cachos da frente do rosto e respirou fundo. Uma respiração que poderia ser de uma mulher do alto de seus quarenta anos de idade, já com certa marca do tempo em sua vida. Não numa menina de quatro. Como a menina não levantava, as outras voltaram a correr e soltar gritinhos próprios da idade, e logo sumiram-se pela casa. Sozinha, sentada no chão gelado, os olhos de gatinho da menina brilharam ao reconhecer na sua frente uma porta. Uma porta fechada. Levantou lentamente, encostou o olho no buraco da fechadura e ficou ali enquanto as meninas corriam. Por horas e horas a fio.

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2 pensamentos sobre “No lado de lá

    • Ah, muito obrigada Lyssa! O importante é que você gostou :)
      E volte sempre por aqui, o In Wonderland está de portas abertas.

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