Sobre a dor, um amigo e uma partida.

E partiu-se.
Partiu o nó que havia sido feito há muito, muito tempo. Nó forte que até então, sob chuva forte ou sol escaldante, ainda continuava firme. Partiu da casa, da cidade, do seu mundo.
Pensou que talvez esse seja mesmo o curso natural das coisas. Alguns vêm, alguns vão, normal não haver um porto certo. A vida te empurra pra isso, te empurra (mesmo?) pra mudança, para o outro lado, para essa infinidade de atribulações que (supérfluas?) são necessárias. E já havia sofrido dores assim, antes, é claro. Lembrou de anos passado e dos choros, dos sentimentos de culpa, raiva, dos gritos e xingamentos feitos. Todos em vão, sempre. Disse em alto e bom som juras infinitas, que nunca cumpriu. É normal, quase intrínseco do ser humano, como uma reação de reflexo. “Promessas malucas, tão curtas quanto um sonho bom”. Mas dor daquele jeito não, não mesmo. Nunca sentira aquilo.
Tentou achar alguma coisa para compará-la. Não dava. Aí entendeu o que diziam (quem?): dor de amor dói, mas dor de amigo, sangra. Sentir aquilo na carne era diferente. Aí pensou que, bom (será que devia mesmo?), ia reunir todas as coisas e jogar fora. Expurgar qualquer indício ou pequeno traço.
Lançou-se correndo sobre vídeos, livros, retratos velhos, um boneco jogado no canto do quarto, um ingresso de show, que bem, lhe trazia lembranças também.
Estancou, num passo.
Mas e se guardasse? Se deixasse tudo numa gavetinha, encerrada mesmo, até que um dia quem sabe, tudo voltasse?
Pensou na cena:
Um belo dia caminhando pela rua, olhando pra ponta do sapato suja de lama, simplesmente se topam como que por encanto (destino?). Olha assustada, bem naquela situação chata de quando ninguém sabe o que fazer. Os cinco segundos mais longos da história. Repara no suéter novo (trocou de trabalho?), naquele olhar murcho de sempre, e naqueles ombros curvados que reconheceria mesmo se estivesse do outro lado da rua.
– “Você por aqui?”
(Acorda, menina!)
Que nada. Sonhar com isso (certeza?) só traria dores de cabeça, mais sofrimento acumulado, mais nós desfeitos. Melhor de tudo mesmo era fingir que nada aconteceu, que nem fazia quando criança e se machucava. O ralado ali, quase obscenamente à mostra, e ela engolindo em seco e sorrindo de lábios apertados.
….
Jogos tudo no lixo, pegou o edredom velho da estante, deitou no sofá e dormiu.

(Deixa sangrar enquanto durmo, que o depois a gente disfarça com um sorriso nos lábios).
Ps: Não escrevi esse texto pra ninguém em particular. Na verdade, escrevi porque sempre vejo textos sobre despedidas, separações e brigas de casais, mas quase nunca sobre partida de amigos. E elas também sangram. Muito, por sinal.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Sobre a dor, um amigo e uma partida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s