Doses diárias

 

Ele é um homem meio que solitário.

Se é que existe a definição ‘meio solitário’ para alguém. Aí fica a dúvida: a diferença entre um meio solitário e um completo solitário é proporcional ao número de pessoas que o cercam ou ao jeito que ele se enxerga no mundo?

O fato é que era um homem meio solitário, seja lá o que isso queira dizer.

Acordava todo dia pontualmente as 05:30 da manhã, quando seu despertador fazia um barulho baixo e chatinho, que tinha mais sentido em irritar do que acordar. Levantava da cama sempre do lado esquerdo e pisava no chão sempre com o pé esquerdo, porque acreditava que a maioria das pessoas estava errada, e que essa mania de vangloriar tanto o lado direito é que tinha deixado o mundo desse jeito todo confuso. A xícara de café já estava em cima da mesa, religiosamente, já que ele fazia questão de deixá-la naquele mesmo bom e velho lugar de sempre, todas as noites.

Depois fazia o café, e ao tomá-lo – com as rigorosas duas colheres de açúcar, nem muito cheias, nem muito vazias – decidia escutar o rádio para ouvir as primeiras notícias do dia.

Mas era tanta coisa ruim que depois de um tempo aquilo cansava. Não só a rádio, mas todas as coisas ruins também…

Aí sim o dia começava. Saía para o trabalho, passando na banca de jornal do lado de casa – mais desgraça no jornal também? – e trabalhava como um louco até o horário do almoço. Isso quando tinha horário de almoço.

À tarde a dose era repetida. Relatórios; cobranças; um email da mãe falando que sentia saudades; a sua caneta preferida quebrando no meio da escrita de uma frase; o menino do outro lado da salinha chorando por ser demitido. As horas arrastavam-se.

De vez em quando algum colega do trabalho soltava alguma piadinha sobre a nova secretária do lugar. Falavam sobre as mulheres de cada um e sobre as brigas que ‘ninguém aguenta’ mais. O homem, enquanto isso, só escutava. De vez em quando para disfarçar, ria e mostrava um sorriso amarelo como quem pedindo desculpa “imagino como deve ser isso”.

Na hora de ir embora era fácil despistar o pessoal da saidinha pós trabalho. Sofrer de enxaqueca todos os dias pode não ser normal, mas pode ser útil em certas situações.

Às vezes não tinha remédio e acaba levando trabalho pra casa. As vezes se enchia de tudo e ficava deitado no sofá escutando Rolling Stones. Depois de comer alguma coisa perdida na geladeira e dar comida pro cachorro – que sabe Deus lá como ainda sobrevivia mesmo com tanto descaso do dono – ia pra cama, porque amanhã era um novo dia.

Bastava um comprimido de aspirina, um olhar para uma foto pendurada na parede, – já de longa data e na qual um casal aparecia com um sorriso estampado no rosto – e o corpo já se posicionava na posição certa. Ou, pelo menos, a posição que ele considerava certa para dormir, e isso é claro, sempre virado para o lado esquerdo.

Fechava os olhos e esperava que o sono viesse. “Amanhã há de ser outro dia”.

E enquanto isso pensava… Seria ele um homem meio solitário, ou um homem completamente solitário?

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