Para Mafalda

Há 45 anos, o cartunista Quino nos presenteava. E não era um presente qualquer… Mafalda – uma menina sonhadora, descrente das atitudes tão banais dos próprios pais e acima de tudo em busca de liberdade e paz para o mundo – entrava em nossas vidas. Há 45 anos  ganhamos como presente as histórias em quadrinhos dessa incrível menina!

A carta que segue abaixo é de autor desconhecido. e foi escrita em 2004, em comemoração aos 40 de nossa amiguinha. A carta de Miguelito – outro personagem das tiras – à Mafalda, nos mostra os possíveis destinos de cada personagem da série, anos depois.

Seria impossível não compartilhar com vocês. =)

Quino e a estátua de Mafalda, em Buenos Aires

Querida Mafalda:

Neste dia tão especial me lembrei do teu aniversário… Como o tempo passa! Nascemos no coração de um país que sonhava. Quantas utopias! Quantos desejos de crescer, de melhorar as coisas! Nos emocionou viver em um tempo de homens criativos: Luther King, Che Guevara, Juan XXIII, John Kennedy; nos trasmitiram o sentido da justiça, o valor dos sentimentos, a maravilhosa aventura de pensar com a própria cabeça. Ontem me perguntava por nossa amiga Liberdade, aquela pequenina que um dia você encontrou em uma praia, não me lembro se era Santa Teresita ou Mar de Tuyú, me lembro ainda quando a apresentou a seus pais… Era viva e queimadinha pelo sol de fevereiro. Onde vive Liberdade? É verdade que a mataram durante a ditadura? Dizem que a torturaram e seu corpo desapereceu no “Rio de la Plata”… Me custa pensar que morreram todos seus sonhos. E se estiver viva? Estará filosofando sobre a fragilidade das coisas e o sentindo da vida? O que aconteceu com Susanita? Se casou? Pôde realizar sua vocação de ser mãe? A imagino vivendo em uma cidade do estado, passeando de braço dado com o marido (um homem baixo e calvo) em uma tarde de verão, feliz com seus filhos e cuidando do primeiro neto, realizada como tantas mulheres comuns. Soube de Manolito, que perdeu suas economias durante o corralito* e não suportou tanta crise! Em seus últimos dias o viram cabisbaixo, murmurando palavras incoerentes, abandonado como um mendigo em uma estação de trem, triste e abatido como tantos… Sei que Felipe vive em Havana, que tentou o cinema, que tem um táxi e que fala de Fidel aos turistas e da revolução com o mesmo entusiasmo de quando vivia em Buenos Aires… Guille, seu irmão, o ouvi tocar, a pouco tempo, na “La Scala de Milano”*. Vive em Genebra, nunca se arrependeu de ter emigrado nos últimos anos de Alfonsin, me contou que é feliz com sua nova parceira… E você, querida amiga, como está? Faz tanto tempo que não tenho notícias suas. Sei, por outros, que segue escutando rádio, que lê os jornais do mundo, que te magoa o Iraque como magoava o Vietnam, sei que trabalha para a “FAO”* pelos povos famintos, que está indignada com a prepotência de Bush. Recebi seu pedido para juntar medicamentos para os “Médicos sin Fronteras”*, sei que continuam as reuniões em sua casa em Paris, que está confusa, inquieta e preocupada com o futuro do mundo. Enfim, Mafalda, sei o suficiente para saber que continua viva, viva na alma, criança como sempre… Da minha parte, sigo escrevendo sempre, renegado porque me falta tempo; crescendo, como sempre, no valor da sinceridade, perdendo oportunidades por manifestar minhas idéias. Alguns dias estou triste e deprimido, mas sempre pode mais a alegria que a tristeza… O mundo não melhorou muito desde a época em que vivíamos juntos em nossa pátria. Às vezes, quando vejo o globo terrestre encontro teu o olhar, penso em todos aqueles que olharam como você, nos olhos dos que protestam, dos que não se conformam, e dos que vivem na atmosfera do otimismo e da justiça… Esses olhos, juntos aos meus, te desejam um bom dia, querida amiga, por outros 40 anos tão intensos e jovens como aqueles que viveu.

Um beijo grande de seu amigo que te ama como sempre.

Miguelito.

*corralito – é o nome informal de uma restrição às extrações de dinheiro em efetivo de prazos fixos, contas correntes e poupanças imposta pelo governo de Fernando de la Rúa em dezembro de 2001. *La Scala de Milano – uma das mais famosas casas de ópera em Milão, Itália. *FAO – sigla de Food and Agriculture Organization (Organização para a Agricultura e a Alimentação), agência especializada da ONU *Médicos sin Fronteras – Médicos sem Fronteiras é uma organização internacional não-governamental sem fins lucrativos que oferece assistência à saúde, em casos como conflitos armados, catástrofes naturais, epidemias, fome e exclusão social. É a maior organização não governamental de ajuda humanitária do mundo, na área da saúde.

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