Conversa de ônibus

A mulher aperta com força o encosto do banco da frente, enquanto um novo sacolejo recai sobre o ônibus.

– Mas Tereza, me explica essa história de fake direito. Que raio de história é essa? Você fala, fala, e ainda sem entende nada – pergunta a mulher, agora olhando para os pés e procurando uma posição mais confortável para o corpo.

– Mas de novo isso, mulher? Já num expliquei?! – com aquele tom exasperado de quem cansou de repetir a mesma história tantas vezes.

– Mas eu não entendi…

– É assim, mulher! Sabe o que é Orkut?

– Claro que sei, né.

O ‘claro que sei’ da mulher foi quase em tom de troça. Como assim perguntar se ela sabia o que era Orkut? Até parecia, desse jeito, que elas não eram amigas. Tinha todo mundo da rua lá. O Orkut era o ponto de fofoca número um das ‘meninas’, era onde o pessoal colocava as fotos que depois iam virar a maior faladeira no outro dia.

– Então, é assim ó… – continua Tereza, jogando os cabelos para trás – Você não tem um Orkut seu? Tem a sua foto lá grandona, depois tem as fotos que você bateu na praça aquela vez. Ah você sabe, né?

– Tá, mas e aí?

– Aí que o fake é seu Orkut também, mas não tem nada seu. Nem a foto, nem nada. È sua vida virtual…

– Nossa, que coisa chique.

– Ai, mulher, ainda não acredito que você não sabia o que era… eu tenho vários fakes, sabe. Falei pra Bete que as fotos dela tavam lindas, que eu ia até fazer um fake dela. Ah, mas cê sabe que fake só tem fake, né…

 – Quê? – a mulher olhou de novos pros pés procurando outra posição.

Aquela história de vida virtual parecia uma coisa tão bonita, coisa de gente famosa, sabe. E se a Tereza tinha o tal do fake, ela também podia ter um fake também. Não podia?

– Os seus amigos do fake, são todos fakes também. O ruim é que tem gente que coloca foto de fake lá na frente do Orkut, mas quando você entra só tem foto da pessoa mesmo. Quando é assim eu não aceito. Porque daí a pessoa não é fake, tendeu? Num tem vida virtual.

– Ah, mas qual o problema?

– Ai, mulher! Como assim, qual o problema?! Se a pessoa não é fake de verdade vai começar a querer saber quem eu sou na vida real, ué! E minha vida virtual não tem nada a ver comigo. Eu só tenho como amigo quem é fake de verdade.

É, parecia que a Tereza sabia mesmo do que estava falando…

– Mas às vezes acontece do seu fake ficar tão amigo de outro fake que você acaba saindo da sua vida virtual pra falar com ele. Tem a Cris lá do Rio que é um fake lindo que eu tenho de amigo. Mas faz tanto tempo que a gente conversa que ela já sabe quem eu sou. Eu mesma, não meu fake. Ela já viu foto minha, viu que eu sou gordinha – fala, enquanto dá uma risadinha -, e eu também já vi foto dela.

– Ai, Tereza, você devia ter me contado dessa história de vida virtual antes. Eu quero fazer um fake, agora.

– Mas mulher, eu vivo falando disso!

* Essa história, sofrendo algumas adaptações, foi presenciada por esta blogueira que vos fala, em uma rápida viagem de ônibus voltando do trabalho. O ponto onde eu deveria descer chegou e não pude saber sobre o resto da conversa…. mas que a Tereza e sua ‘vida virtual’ não me saíram da cabeça, não há como negar.

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